61 socos em um elevador.

Não foi um surto. Foi escolha. Foi agressão repetida, cravada no corpo de quem não tinha mais como fugir. E mesmo depois de tantos golpes, o que mais doeu não foi a pancada — foi o silêncio de quem viu o vídeo e disse: “Mas por que ela não saiu antes?” É sempre assim. O julgamento vem antes da ajuda. E ninguém imagina o que é viver com medo. Medo de morrer se sair. Medo de morrer se ficar. Medo de procurar justiça e ser desacreditado. Medo de pedir socorro e escutar: “Isso é coisa de casal.” Agressão não acontece só com mulheres. Acontece com homens gays que se escondem porque têm medo de serem ridicularizados. Acontece com pessoas trans que já não confiam nem na polícia, nem na lei. Acontece com quem parece forte, independente, sorridente… e por dentro, está em pedaços. A dor de quem sofre agressão vai além do hematoma. É a alma que adoece. É o coração que se fecha. É o futuro que paralisa. E quando a justiça falha, o medo cresce. O silêncio cresce. A impunidade cresce. E a dor, que deveria ser passageira, vira rotina. Esse texto é por quem ainda não conseguiu sair. Por quem saiu, mas carrega cicatrizes que ninguém vê. Por quem gritou em silêncio e não foi ouvido. Por todas as vozes que ainda não foram silenciadas — e precisam ecoar. Porque não é exagero. Não é drama. É real. E pode estar acontecendo agora, dentro da casa ao lado. Ou no elevador, no quarto, no carro, na alma. Chega de julgar quem apanha. Comece a questionar quem bate.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

61 socos em um elevador.

Não foi um surto. Foi escolha. Foi agressão repetida, cravada no corpo de quem não tinha mais como fugir. E mesmo depois de tantos golp...